Contrato de compra e venda de imóvel sobre a mesa com chaves ao lado, antes da assinatura

Direito de Preferência: quem tem, quando se aplica e como exercer

advogada maria pires

Dr.ª Maria Pires · Advogada
cédula n.º 69543P

Sumário

  • Quem tem direito de preferência na compra de um imóvel — inquilino, comproprietário, vizinho confinante e entidades públicas — e por que ordem
  • Os prazos que contam: 8, 10 ou 30 dias para responder, 6 meses para a ação de preferência
  • Como se faz a notificação, como se renuncia por escrito e o que acontece a quem vende sem notificar

Quando um imóvel vai ser vendido, nem sempre o vendedor pode escolher livremente o comprador. Em situações previstas na lei, há pessoas e entidades com prioridade na compra, nas mesmas condições oferecidas a terceiros. Ignorar essa prioridade não impede a escritura na maior parte dos casos — mas permite ao preterido ficar com o imóvel depois de o negócio estar feito.

Este guia explica o regime completo; para analisar uma venda concreta, o ponto de partida é o serviço de exercer o direito de preferência.

Veja como verificamos quem prefere no seu caso.
Índice
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    O que é o direito de preferência

    Resposta rápida: o direito de preferência é a prioridade que certas pessoas ou entidades têm na compra de um bem, nas mesmas condições oferecidas a um terceiro. Quem quer vender comunica o projeto de venda e as cláusulas do contrato ao preferente (artigo 416.º do Código Civil); este decide dentro do prazo legal se compra. Se recusar ou não responder, o direito caduca e a venda segue com o terceiro.

    O direito de preferência tem duas origens. Pode nascer de um contrato — o pacto de preferência, em que alguém se obriga a dar preferência a outra pessoa se um dia vender. E pode nascer diretamente da lei, que atribui prioridade a certas pessoas pela posição que ocupam: o inquilino no local arrendado, o comproprietário na quota do consorte, o vizinho no terreno rústico confinante, o Estado e os municípios em imóveis com relevância pública.

    A diferença prática é grande: as preferências legais permitem ao titular preterido recorrer à ação de preferência e haver para si o imóvel vendido sem o seu conhecimento. É por isso que este tema decide negócios — e é por isso que os prazos importam tanto.

    Quem tem direito de preferência na compra de imóvel

    TitularQuando existeBase legalPrazo de resposta
    Arrendatário (inquilino)Venda ou dação em cumprimento do local arrendado há mais de 2 anosArt. 1091.º CC30 dias
    ComproprietárioVenda ou dação em cumprimento de quota a quem não é consorteArt. 1409.º CC8 dias
    Vizinho confinanteTerrenos rústicos, ambos abaixo da unidade de culturaArts. 1380.º e 1381.º CC8 dias
    Comproprietários, Estado, Regiões Autónomas e municípios, por esta ordemBens classificados ou em vias de classificação e imóveis na zona de proteçãoArt. 37.º da Lei n.º 107/20018 dias (regime dos arts. 416.º a 418.º CC)
    Município ou entidade gestoraTransmissões onerosas em área de reabilitação urbana (ARU)Art. 58.º do RJRUConforme o procedimento aplicável

    Arrendatário (inquilino)

    O inquilino tem preferência na compra e venda — e também na dação em cumprimento — do local que arrenda há mais de dois anos. A comunicação é obrigatoriamente feita por carta registada com aviso de receção e o prazo de resposta é de 30 dias (artigo 1091.º, n.º 4, do Código Civil), o mais longo de todas as preferências privadas. Vamos dedicar um artigo próprio ao direito de preferência do inquilino, com a minuta da carta e os casos especiais.

    Comproprietários

    Quando um dos donos de um imóvel em compropriedade vende a sua quota a um estranho, os restantes têm preferência — e a lei dá-lhes o primeiro lugar entre os preferentes legais (artigo 1409.º, n.º 1). Se dois ou mais comproprietários quiserem exercer, a quota é adjudicada a todos, na proporção das quotas de cada um.

    Vizinhos de terrenos rústicos confinantes

    Os proprietários de terrenos rústicos confinantes preferem reciprocamente na venda, dação em cumprimento ou aforamento — mas só quando os terrenos têm área inferior à unidade de cultura da região, e com exceções relevantes, como o terreno destinado a construção. As condições, a graduação entre vários vizinhos e a minuta da carta estão no artigo dedicado ao direito de preferência do vizinho.

    Estado, municípios e património cultural

    Nos bens classificados ou em vias de classificação — e nos imóveis situados na respetiva zona de proteção — a Lei do Património Cultural estabelece uma hierarquia que pouca gente conhece: preferem, por esta ordem, os comproprietários, o Estado, as Regiões Autónomas e os municípios (artigo 37.º da Lei n.º 107/2001). E o artigo 38.º vai mais longe: sem a comunicação devida, o notário não pode celebrar a escritura nem o conservador registar o ato.

    Nas áreas de reabilitação urbana, o município ou a entidade gestora tem preferência nas transmissões onerosas (artigo 58.º do Regime Jurídico da Reabilitação Urbana), exercida nos termos do regime dos instrumentos de gestão territorial.

     

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    Prazos: quantos dias para exercer a preferência

    Os prazos são a parte do regime onde mais se erra — e onde os erros custam mais caro:

    SituaçãoPrazoConta-se desde
    Exercício da preferência — regra geral8 diasReceção da comunicação (art. 416.º, n.º 2, CC)
    Exercício pelo inquilino30 diasReceção da carta registada (art. 1091.º, n.º 4, CC)
    Entidades públicas, através do anúncio eletrónico10 diasInscrição do anúncio no portal (art. 19.º do DL n.º 263-A/2007)
    Ação de preferência6 mesesConhecimento dos elementos essenciais da venda (art. 1410.º CC)
    Depósito do preço na ação de preferência15 diasPropositura da ação (art. 1410.º CC)

    Duas notas que evitam confusões frequentes. Os 8 dias da regra geral são dias seguidos — a lei não fala em dias úteis — e podem ser encurtados ou alargados por acordo. E o silêncio tem consequência: quem não responde dentro do prazo perde o direito, por caducidade.

    Como funciona a notificação para preferência

    Quem quer vender tem de comunicar ao preferente o projeto de venda e as cláusulas do contrato (artigo 416.º, n.º 1). Na prática, uma comunicação segura identifica o imóvel, o preço, as condições de pagamento e o comprador proposto. Uma comunicação incompleta — sem preço ou sem as condições reais — vale como falta de notificação: o prazo nem sequer começa a correr.

    A lei resolve também duas situações menos óbvias:

    Venda em conjunto com outros bens (artigo 417.º). Se o imóvel for vendido juntamente com outros por um preço global, o preferente pode exercer só quanto ao imóvel, pelo preço que proporcionalmente lhe couber. O vendedor pode exigir que a preferência abranja tudo — mas apenas se os bens não forem separáveis sem prejuízo apreciável.

    Prestações acessórias (artigo 418.º). Se o terceiro comprador prometeu uma prestação extra que o preferente não consegue satisfazer, ela é compensada em dinheiro. Se nem em dinheiro for avaliável, a preferência pode ficar excluída — salvo se a prestação tiver sido convencionada precisamente para afastar o preferente. Nesse caso, a manobra não funciona: o preferente exerce sem ter de a satisfazer.

    Renúncia ao direito de preferência

    O preferente não é obrigado a comprar — e também não é obrigado a esperar que o prazo corra. Recebida a comunicação, pode declarar por escrito que não pretende exercer o direito. Essa renúncia fecha a questão de imediato e permite ao vendedor avançar sem esperar o fim do prazo.

    Um ponto merece honestidade: a renúncia perante uma comunicação concreta, com preço e condições identificados, é segura. Já a renúncia genérica e antecipada — “renuncio a qualquer preferência futura” — não está expressamente regulada na lei para as preferências legais, e o seu valor é discutível. Na prática, a solução prudente é simples: renunciar sempre por referência a um negócio identificado.

    Minuta de declaração de renúncia

    Minuta de utilização livre. Adapte os campos entre parênteses:

    Declaração de renúncia ao direito de preferência

    [Nome completo], contribuinte n.º [NIF], residente em [morada], na qualidade de [arrendatário / comproprietário / proprietário confinante] do prédio [identificação matricial e freguesia], declara, para os devidos efeitos, que:

    1 – Tomou conhecimento do projeto de venda do prédio [identificação], pelo preço de [valor] euros, nas condições comunicadas em [data];

    2 – Não pretende exercer o direito de preferência que lhe assiste nessa alienação, ao qual renuncia expressamente;

    3 – Nada tem a opor a que a venda se realize com o comprador proposto, nas condições comunicadas.

    [Local e data]

    [Assinatura]

    Ação de preferência: quando a lei é ignorada

    Vender sem notificar o preferente não torna a venda nula. Abre algo mais grave: a ação de preferência (artigo 1410.º do Código Civil), pela qual o preterido pede ao tribunal para ficar com o imóvel no lugar do comprador, nas mesmas condições do negócio.

    Os requisitos são rígidos e cumulativos: a ação tem de ser proposta no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente conheceu os elementos essenciais da venda, e o preço devido tem de ser depositado nos 15 dias seguintes à propositura. Falhar qualquer um deles mata a ação.

    Se a ação proceder, a venda mantém-se — muda o comprador. O terceiro perde o imóvel e volta-se contra o vendedor para ser ressarcido. E não vale a pena tentar desfazer o negócio para escapar: a modificação ou o distrate da alienação não prejudicam a ação (artigo 1410.º, n.º 2).

    Nos bens classificados, a proteção começa ainda antes: sem a comunicação da Lei n.º 107/2001, o notário está impedido de celebrar a escritura e o conservador de a registar (artigo 38.º).

    Quando não há direito de preferência

    Tão importante como saber quem prefere é saber o que não desencadeia preferência nenhuma:

    SituaçãoHá preferência?Fundamento
    Compra e vendaSimRegra geral dos regimes legais
    Dação em cumprimentoSimArts. 1091.º, 1380.º e 1409.º CC
    DoaçãoNãoA lei abrange alienações onerosas, não gratuitas
    Permuta (troca)Em regra, nãoOs regimes legais referem venda e dação em cumprimento
    Venda de terreno rústico a outro confinanteNão há preferência dos restantesArt. 1380.º, n.º 1, CC
    Terreno destinado a fim diverso da cultura — por exemplo, construçãoNãoArt. 1381.º, al. a), CC
    Prestação acessória não avaliável em dinheiro, sem intuito de afastar o preferenteNãoArt. 418.º, n.º 1, CC

    Nos casos duvidosos — prédios mistos, partilhas, negócios estruturados — a resposta raramente é automática: depende dos documentos e da configuração concreta do negócio.

    Pessoa a assinar uma declaração de renúncia junto ao balcão de atendimento

    Casa Pronta e o anúncio eletrónico

    Para as preferências de entidades públicas, o vendedor pode substituir as notificações individuais por um anúncio eletrónico no portal Casa Pronta: as entidades têm 10 dias, a contar da inscrição, para manifestar intenção — e o silêncio faz caducar o direito (artigos 18.º e 19.º do DL n.º 263-A/2007).

    Atenção ao alcance: o anúncio não substitui a carta ao inquilino, ao comproprietário ou ao vizinho confinante. O procedimento completo, os custos do balcão e os erros mais comuns estão no artigo sobre Casa Pronta e direito de preferência.

    Aviso legal: este conteúdo é informativo e não substitui aconselhamento jurídico — cada caso depende de circunstâncias concretas que só podem ser avaliadas em consulta. A informação reflete o quadro legal à data da última revisão. Para analisar o seu caso, contacte a QUOR.

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    Perguntas frequentes sobre direito de preferência

    É a prioridade que certas pessoas ou entidades têm na compra de um bem, nas mesmas condições oferecidas a terceiros. Está previsto no Código Civil e em legislação especial, e pode nascer da lei ou de contrato.

     

    Os principais titulares são o arrendatário há mais de dois anos (art. 1091.º CC), os comproprietários (art. 1409.º CC), os proprietários de terrenos rústicos confinantes abaixo da unidade de cultura (art. 1380.º CC) e, em imóveis classificados ou em ARU, as entidades públicas (Lei n.º 107/2001 e RJRU).

    Depende do titular: 30 dias para o inquilino, 8 dias na regra geral — comproprietários e confinantes —, 10 dias para as entidades públicas notificadas por anúncio eletrónico. O prazo conta-se da receção da comunicação ou da inscrição do anúncio.

    O projeto de venda e as cláusulas do contrato (art. 416.º CC): imóvel, preço, condições de pagamento e comprador proposto. Uma comunicação incompleta vale como falta de notificação e o prazo não começa a correr.

     

    É a ação judicial em que o preferente preterido pede para ficar com o imóvel no lugar do comprador, nas mesmas condições da venda. Tem de ser proposta em 6 meses e exige o depósito do preço nos 15 dias seguintes (art. 1410.º CC).

     

    Não. As preferências legais aplicam-se a alienações onerosas — a compra e venda e a dação em cumprimento. Doações e, em regra, permutas ficam de fora.

     

    Sim. Recebida a comunicação com o preço e as condições, o preferente pode renunciar por escrito, e o vendedor avança sem esperar o fim do prazo. A renúncia genérica antecipada, sem negócio identificado, tem valor discutível — renuncie sempre por referência a uma venda concreta.

     

    Não. A preferência municipal existe sobretudo em áreas de reabilitação urbana (art. 58.º do RJRU) e, nos bens classificados e zonas de proteção, dentro da hierarquia do art. 37.º da Lei n.º 107/2001 — na qual, aliás, os comproprietários preferem antes do Estado e dos municípios. Fora destes quadros, não há preferência municipal genérica.

     

    Accordion Content

    Regime geral da preferência

    NormaO que determina
    Art. 416.º do Código CivilObriga o vendedor a comunicar ao preferente o projeto de venda e as cláusulas do contrato; o direito exerce-se em oito dias após a comunicação, sob pena de caducidade, salvo prazo convencionado diferente
    Art. 417.º do Código CivilVenda conjunta por preço global: a preferência exerce-se pelo preço proporcional do bem; o vendedor pode exigir que abranja os restantes bens se não forem separáveis sem prejuízo apreciável
    Art. 418.º do Código CivilPrestação acessória prometida por terceiro: compensa-se em dinheiro; não sendo avaliável, exclui a preferência, salvo se se presumir que a venda se faria sem ela ou que foi convencionada para afastar o preferente — caso em que este exerce sem a satisfazer

    Titulares das preferências legais imobiliárias

    NormaO que determina
    Art. 1091.º do Código CivilPreferência do arrendatário na venda ou dação em cumprimento do local arrendado há mais de dois anos; carta registada com aviso de receção e prazo de resposta de 30 dias
    Art. 1409.º do Código CivilPreferência do comproprietário, com primeiro lugar entre os preferentes legais; havendo vários, a quota é adjudicada na proporção das quotas
    Arts. 1380.º e 1381.º do Código CivilPreferência recíproca dos proprietários de terrenos rústicos confinantes de área inferior à unidade de cultura, com graduação entre preferentes; exceções, nomeadamente terreno com fim diverso da cultura

    Tutela do preferente

    NormaO que determina
    Art. 1410.º do Código CivilAção de preferência: seis meses a contar do conhecimento dos elementos essenciais da alienação e depósito do preço nos 15 dias seguintes à propositura; a modificação ou distrate do negócio não prejudica a ação

    Entidades públicas e procedimentos

    NormaO que determina
    Arts. 37.º e 38.º da Lei n.º 107/2001, de 8 de setembroNos bens classificados ou em vias de classificação e respetivas zonas de proteção preferem, por esta ordem, os comproprietários, o Estado, as Regiões Autónomas e os municípios; sem a comunicação devida, a escritura e o registo estão vedados
    Art. 58.º do DL n.º 307/2009, de 23 de outubro (RJRU)Preferência do município ou entidade gestora nas transmissões onerosas em área de reabilitação urbana
    Arts. 18.º e 19.º do DL n.º 263-A/2007, de 23 de julhoAnúncio eletrónico que substitui a notificação às entidades públicas; manifestação de intenção em 10 dias a contar da inscrição, sob pena de caducidade
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